A Alma Católica dos Evangélicos no Brasil
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Autor Tópico: A Alma Católica dos Evangélicos no Brasil  (Lida 2125 vezes)
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« : 23 Julho, 2011, 09:08:31 »

A Alma Católica dos Evangélicos no Brasil
Augustus Nicodemus
Foi um dos preletores da 22ª conferência Fiel - Brasil.
Os evangélicos no Brasil nunca conseguiram se livrar totalmente da influência
do Catolicismo Romano.Por séculos, o Catolicismo formou a mentalidade
brasileira, a sua maneira de ver o mundo (“cosmovisão”). O crescimento do
número de evangélicos no Brasil é cada vez maior –segundo o IBGE, seremos
40 milhões neste ano de 2006 – mas há várias evidências de que boa parte dos
evangélicos não tem conseguido se livrar da herança católica.É um fato que a
conversão verdadeira(arrependimento e fé) implica uma mudança espiritual e
moral,mas não significa necessariamente uma mudança na maneira como a
pessoa vê o mundo. Alguém pode ter sido regenerado pelo Espírito e ainda
continuar, por um tempo, a enxergar as coisas com os pressupostos antigos.É o
caso dos crentes de Corinto por exemplo. Alguns deles haviam sido impuros,
idólatras, adúlteros,efeminados, sodomitas, ladrões,avarentos, bêbados,
maldizentes e roubadores. Todavia, haviam sido lavados, santificados e
justificados “em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (1
Co6.9-11), sem que isso significasse que uma mudança completa de
mentalidade houvesse ocorrido com eles. Na primeira carta que lhes escreve,
Paulo revela duas áreas em que eles continuavam a agir como pagãos: na
maneira grega dicotômica de ver o mundo dividido em matéria e espírito(que
dificultava a aceitação entre eles das relações sexuais no casamento e a
ressurreição física dos mortos– capítulos 7 e 15) e o culto à personalidade
mantido para com os filósofos gregos (que logo os levou a formar partidos na
igreja em torno de Paulo, Pedro, Apolo e mesmo o próprio Cristo – capítulos 1 a
4). Eles eram cristãos, mas com a alma grega pagã.Da mesma forma, creio que
grande parte dos evangélicos no Brasil tem a alma católica. Antes de passar às
argumentações, preciso esclarecer um ponto. Todas as tendências que eu
identifico entre os evangélicos como sendo herança católica,no fundo, antes de
serem católicas, são realmente tendências da nossa natureza humana
decaída,corrompida e manchada pelo pecado,que se manifestam em todos os
lugares, em todos os sistemas e não somente no Catolicismo. Como disse o
reformado R. Hooykas, famoso historiador da ciência, “no fundo,somos todos
romanos” (Philosophia Liberta, 1957). Todavia, alguns sistemas são mais
vulneráveis a essas tendências e as absorveram mais que outros, como penso
que é o caso com o Catolicismo no Brasil. E que tendências são essas?
1) O gosto por bispos e apóstolos–
Na Igreja Católica, o sistema papal impõe a autoridade de um único homem
sobre todo o povo. A distinção entre clérigos (padres, bispos,cardeais e o papa)
e leigos (o povo comum) coloca os sacerdotes católico sem um nível acima das
pessoas normais, como se fossem revestidos de uma autoridade, um carisma,
uma espiritualidade inacessível, que provoca a admiração e o espanto da gente
comum, infundindo respeito e veneração.Há um gosto na alma brasileira por
bispos, catedrais, pompas,rituais. Só assim consigo entender a aceitação
generalizada por parte dos próprios evangélicos de bispos e apóstolos autonomeados,
mesmo após Lutero ter rasgado a bula papal que o excomungava e
queimá-la na fogueira. A doutrina reformada do sacerdócio universal dos crentes
e a abolição da distinção entre clérigos e leigos ainda não permearam a cosmovisão
dos evangélicos no Brasil,com poucas exceções.
2) A idéia de que pastores são mediadores entre Deus e os
homens–
No Catolicismo, a Igreja é mediadora entre Deus e os homens e transmite a
graça divina mediante os sacramentos,as indulgências, as orações.Os
sacerdotes católicos são vistos como aqueles através de quem essa graça é
concedida, pois são eles que, com as suas palavras, transformam,na Missa, o
pão e o vinho no corpo e no sangue de Cristo; que aplicam a água benta no
batismo para remissão de pecados; que ouvem a confissão do povo e
pronunciam o perdão de pecados. Essa mentalidade de mediação humana
passou para os evangélicos, com poucas mudanças.Até nas igrejas chamadas
históricas,os crentes brasileiros agem como se a oração do pastor fosse mais
poderosa do que a deles e como se os pastores funcionassem como
mediadores entre eles e os favores divinos. Esse ranço do Catolicismo vem
sendo cada vez mais explorado por setores neopentecostais do
evangelicalismo,a julgar por práticas já assimiladas como “a oração dos
318homens de Deus”, “a prece poderosa do bispo tal”, “a oração da irmã fulana,
que é profetisa”, etc
3) O misticismo supersticioso no apego a objetos sagrados –
O Catolicismo no Brasil, por sua vez influenciado pelas religiões afrobrasileiras,
semeou misticismo e superstição durante séculos na alma
brasileira:milagres de santos, uso de relíquias, aparições de Cristo e de Maria,
objetos ungidos e santificados,água benta, entre outros. Hoje, há um
crescimento espantoso,entre setores evangélicos,do uso de copo d’água,rosa
ungida,sal grosso,pulseiras abençoadas,pentes santos do kit de beleza da
rainha Ester, peças de roupa de entes queridos,oração no monte, no vale; óleos
de oliveiras de Jerusalém, água do Jordão, sal do Vale do Sal, trombetas de
Gideão (distribuídas em profusão),o cajado de Moisés... é infindável e sem
limites a imaginação dos líderes e a credulidade do povo. Esse fenômeno só
pode ser explicado, ao meu ver, por um gosto intrínseco pelo misticismo
impresso na alma católica dos evangélicos.
4) A separação entre sagrado e profano –
No centro do pensamento católico existe a distinção entre natureza e graça,
idealizada e defendida por Tomás de Aquino, um dos mais importantes teólogos
da Igreja Católica.Na prática, isso significou a aceitação de duas realidades
coexistentes,antagônicas e freqüentemente irreconciliáveis: o sagrado,
substanciado na Santa Igreja, e o profano,que é tudo o mais no mundo lá
fora.Os brasileiros aprenderam durante séculos a não misturar as coisas:
sagrado é aquilo que a gente vai fazer na Igreja: assistir Missa e se confessar.O
profano – meu trabalho, meus estudos, as ciências – permanece intocado pelos
pressupostos cristãos, separados de forma estanque. É a mesma atitude dos
evangélicos.Falta nos uma mentalidade que integre a fé às demais áreas da
vida, conforme a visão bíblica de que tudo é sagrado. Por exemplo,na área da
educação, temos por séculos deixado que a mentalidade humanista
secularizada, permeada de pressupostos anticristãos, eduque os nossos filhos,
do ensino fundamental até o superior, com algumas exceções.Em outros países,
os evangélicos têm tido mais sucesso em manter instituições de ensino
que,além de serem tão competentes como as outras, oferecem uma visão de
mundo, de ciência, de tecnologia e da história oriunda de pressupostos cristãos.
Numa cultura permeada pela idéia de que o sagrado e o profano,a religião e o
mundo, são dois reinos distintos e freqüentemente antagônicos,não há como
uma visão integral surgir e prevalecer, a não ser por uma profunda reforma de
mentalidade entre os evangélicos.
5) Somente pecados sexuais são realmente graves –
A distinção entre pecados mortais e veniais feita pelo catolicismo romano vem
permeando a ética brasileira há séculos. Segundo essa distinção, pecados
considerados mortais privam a alma da graça salvadora e a condenam ao
inferno, enquanto que os veniais,como o nome já indica, são mais leves e
merecem somente castigos temporais.A nossa cultura se encarregou de
preencher as listas dos mortais e dos veniais. Dessa forma, enquanto se pode
aceitar a “mentirinha”, o jeitinho, o tirar vantagem, a maledicência,etc., o
adultério se tornou imperdoável. Lula foi reeleito cercado de acusações de
corrupção. Mas, se tivesse ocorrido uma denúncia de escândalo sexual, tenho
dúvidas de que teria sido reeleito ou de que teria sido reeleito por uma margem
tão grande. Nas igrejas evangélicas – onde se sabe pela Bíblia que todo pecado
é odioso e que quem guarda toda a lei de Deus e quebra um só mandamento é
culpado de todos – é raro que alguém seja disciplinado, corrigido, admoestado,
destituído ou despojado por pecados como mentira, preguiça, orgulho, vaidade,
maledicência, entre outros. As disciplinas eclesiásticas acontecem via de regra
por pecados de natureza sexual, como adultério, prostituição, fornicação,adição
à pornografia, homossexualismo,etc., embora até mesmo esses estão sendo
cada vez mais aceitáveis aos olhos evangélicos. Mais um resquício de
catolicismo na alma dos evangélicos?O que é mais surpreendente é que os
evangélicos no Brasil estão entre os mais anticatólicos do mundo. Só para
ilustrar (e sem entrar no mérito dessa polêmica), o Brasil é um dos países onde
convertidos do catolicismo são rebatizados nas igrejas evangélicas. O anticatolicismo
brasileiro, todavia, se concentrou apenas na questão das imagens e
de Maria e em questões éticas como não fumar, não beber e não dançar. Não
foi e não é profundo o suficiente para fazer uma crítica mais completa de outros
pontos que, por anos, vêm moldando a mentalidade do brasileiro, como
mencionei acima. Além de uma conversão dos ídolos e de Maria a Cristo, os
brasileiros evangélicos precisam de conversão na mentalidade,na maneira de
ver o mundo.Temos de trazer cativo a Cristo todo pensamento, e não somente
os nossos pecados. Nossa cosmo-visão precisa também de conversão (2Co.
10:4-5). Quando vejo o retorno de grandes massas ditas evangélicas às práticas
medievais católicas de usar no culto a Deus objetos ungidos e consagrados,
procurando para si bispos e apóstolos, imersas em práticas supersticiosas, me
pergunto se, ao final das contas, o neo-pentecostalismo brasileiro não é, na
verdade, um filho da Igreja Católica medieval, uma forma de neo-catolicismo
tardio que surge e cresce em nosso país, onde até os evangélicos têm alma
católica.
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